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Solenidade de Cristo Rei encerra o ciclo de celebrações, que recomeça no primeiro Domingo do Advento.

Solenidade de Cristo Rei encerra o ciclo de celebrações, que recomeça no primeiro Domingo do Advento.

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Diferente do ano civil, o Ano Litúrgico, da Igreja Católica, começa no primeiro Domingo do Advento e não em 1º de janeiro. A festa é celebrada desde 1925 e foi instituída pelo Papa Pio XI, por meio da Encíclica ‘Quas Primas’, como resposta ao crescimento do ateísmo, do secularismo e de ideologias totalitárias que rejeitavam a soberania divina no período pós-Primeira Guerra Mundial.

Anualmente nessa mesma data celebramos o Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas. Este foi estabelecido em 1991 pela Assembleia Geral do Conselho Nacional do Laicato no Brasil (CNLB), e, neste ano reflete sobre o tema: “Cristãos leigos e leigas: Igreja no coração do mundo”.

Para falar sobre a importância do evento que começa no domingo, 22 de novembro, conversamos com o Pe. Edvanderson Cordeiro Severino, Mestre em Sagrada Teologia, com especialização em Liturgia Pastoral, pelo Instituto de Liturgia Pastoral de Santa Justina, em Pádua/Itália e vigário na Paróquia Santa Luzia. 

1. O que o Ano Litúrgico representa para a Igreja Católica e como ele se diferencia do ano civil?

Pe. Edvanderson: O Ano Litúrgico não é uma mera sucessão cronológica de dias e meses, nem uma simples comemoração de fatos do passado. Ele é a celebração viva do próprio Mistério de Cristo no hoje da história (Sacrosanctum Concilium, 102). Enquanto o ano civil organiza a vida social e civil com base no ciclo solar astronômico (de 1º de janeiro a 31 de dezembro), o Ano Litúrgico pauta-se pelo tempo da graça (kairós).

Ele começa no Primeiro Domingo do Advento e nos conduz pedagogicamente por todo o desígnio da salvação: da expectativa da Encarnação à Paixão, Morte, Ressurreição, Ascensão e Pentecostes. Em cada ciclo, o fiel não apenas recorda a vida de Jesus, mas é inserido sacramentalmente em sua obra redentora.


2. Por que o ano litúrgico termina especificamente com a Solenidade de Cristo, Rei do Universo? Qual é o simbolismo dessa transição?

Pe. Edvanderson: A colocação desta Solenidade no encerramento do Ano Litúrgico — reformulada pelo Papa Paulo VI após o Vaticano II — possui uma profunda intenção teológica: mostrar que Jesus Cristo é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim da história humana e do universo (Apocalipse 22, 13).

O simbolismo da transição é claro: a caminhada da Igreja não é um ciclo fechado que se repete indefinidamente, mas uma caminhada orientada para uma meta final. Ao celebrarmos Cristo como Rei do Universo no último domingo do ciclo, professamos que todo o tempo, a criação e a história convergirão para a sua Segunda Vinda (Parusia), quando Deus será "tudo em todos" (1 Coríntios 15, 28). É o fecho de glória que imediatamente nos abre à esperança vigilante do Advento.

 

3. Como a Igreja define o "Reinado" de Jesus Cristo, considerando que o próprio Jesus disse que o seu Reino não é deste mundo?

Pe. Edvanderson: Quando Jesus afirma diante de Pilatos que o seu Reino "não é deste mundo" (João 18, 36), Ele não está dizendo que seu Reino nada tem a ver com o mundo, mas sim que a sua origem e a sua lógica não derivam das estruturas de dominação humana. Como nos ensina o Papa Pio XI na Encíclica Quas Primas (1925), o Reino de Cristo é espiritual e visa à salvação das almas.

No entanto, a soberania de Cristo abrange toda a criação (CIC, 2105). Ele reina sobre as inteligências, vontades e corações humanos. Seu estilo de realeza não é a opressão nem o poder autoritário, mas o serviço, a verdade, a justiça e o amor doentio entregue na Cruz. Por isso, a Igreja ensina que o Reino de Deus já começa neste mundo através da transformação das realidades temporais pela vivência do Evangelho.

 

4. Qual é o significado da cor branca (ou branca e dourada) usada nesta solenidade, vindo logo após o tempo comum?

Pe. Edvanderson: No código simbólico da liturgia católica, a cor veste a linguagem do mistério (IGMR, n. 346). Durante longas semanas do Tempo Comum, a Igreja utiliza o verde, que evoca a esperança e o amadurecimento diário da semente da fé no cotidiano.

Ao culminar o ano na Solenidade de Cristo Rei, os paramentos passam a ser brancos ou dourados. O branco é a cor da luz incriada, da pureza, da glória e da alegria pascal. Ele irrompe no altar para nos lembrar da vitória definitiva do Ressuscitado sobre o pecado e a morte, revestindo a celebração com a majestade e a solenidade próprias do Rei da Glória.

 

5. Como cada paróquia pode avaliar a caminhada pastoral e espiritual da comunidade ao longo deste ano litúrgico que se encerra?

Pe. Edvanderson: O encerramento do ciclo litúrgico é uma oportunidade privilegiada para um discernimento comunitário e sinodal. A paróquia não pode ser gerida apenas por métricas burocráticas, mas pela avaliação do dinamismo do Espírito em seu meio.

A comunidade deve confrontar seus projetos com o Evangelho: Qual foi o alcance da nossa caridade com os mais vulneráveis? Como cuidamos da formação bíblico-catequética? As nossas liturgias foram verdadeiras fontes de vida espiritual ou meros ritos formais? Trata-se de dar graças a Deus pelos frutos maduros colhidos e, ao mesmo tempo, identificar onde a vida comunitária precisa ser purificada e reevangelizada.


6. A Solenidade de Cristo Rei ajuda na preparação para o Tempo do Advento, que começa no domingo seguinte?

Pe. Edvanderson: Perfeitamente. Há um elo profundo entre a visão escatológica do último domingo e o início do ciclo do Natal. O Advento possui duas dimensões essenciais: a preparação para a Solenidade do Natal (a Primeira Vinda na humildade da carne) e o olhar dirigido à Segunda Vinda de Cristo no Fim dos Tempos.

Celebrar Cristo Rei do Universo coloca-nos precisamente diante do horizonte da consumação final. Isso ilumina o Advento, impedindo que ele seja reduzido a um sentimentalismo comercial pré-natalino. O fiel que contempla Cristo Glorioso na Solenidade de Cristo Rei inicia o Advento com uma postura de sobriedade, vigilância e desejo profundo pelo retorno do Senhor ("Maranathá! Vem, Senhor Jesus!").


7. Como a comunidade paroquial pode celebrar esta data? Há alguma tradição específica na região (como procissões ou coroações)?

Pe. Edvanderson: A celebração ganha vida na Eucaristia Solene, onde a comunidade aclamamos a Cristo como o centro da vida comunitária. Segundo o Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia (n. 171), é tradição muito recomendada a realização de momentos de Adoração ao Santíssimo Sacramento e a Bênção Eucarística, reconhecendo na Eucaristia o Rei velado e presente.

Em muitas regiões e dioceses brasileiras, realizam-se procissões solenes com a imagem de Cristo Rei ou com o próprio Santíssimo Sacramento, além de momentos de renovação das promessas do Batismo. Atos de caridade organizada para assinalar a data também expressam que o Rei se faz presente nos "menores dos seus irmãos" (Mateus 25, 40).


8. A data também é um convite para um exame de consciência quanto ao crescimento espiritual nos últimos 12 meses e a disposição para o novo ano litúrgico?

Pe. Edvanderson: Sem dúvida. O tempo litúrgico é uma pedagogia de conversão contínua. Chegar ao fim do ano exige um exame de consciência pessoal sincero: “Eu permiti que a Palavra proclamada aos domingos transformasse o meu caráter? Cresci no amor, na paciência e na capacidade de perdoar nos últimos 12 meses?” Este balanço espiritual não busca gerar culpa, mas suscitar a contrição e o desejo de renovação. O recurso ao Sacramento da Reconciliação neste período é um excelente meio para purificar o coração e iniciar o novo ano litúrgico com as disposições interiores alinhadas à graça de Deus.


9. O que significa, na prática do dia a dia, deixar que Cristo reine na sua família, no seu trabalho e nas suas decisões?

Pe. Edvanderson: Deixar Cristo reinar não significa adotar uma religiosidade teórica, mas permitir que a sua Palavra seja a medida suprema da existência (Quas Primas, n. 33). Na Família: Significa fazer do lar uma "Igreja Doméstica" (Familiaris Consortio), onde prevalecem o perdão mútuo, a fidelidade, a oração compartilhada e o respeito entre as gerações, No Trabalho: Significa atuar com rigor ético, honestidade, rejeição de subornos ou desonestidades e promoção da justiça social (Gaudium et Spes), Nas Decisões: Significa consultar a consciência moral antes de agir, escolhendo a verdade e a caridade mesmo quando isso exigir renúncias pessoais ou for impopular aos olhos da cultura dominante.

 

10. A data foi instituída em um contexto de guerras e ascensão do secularismo. Como a mensagem de Cristo Rei fala aos desafios e crises do mundo atual?

Pe. Edvanderson: O Papa Pio XI instituiu esta festa em 1925, no pós-Primeira Guerra Mundial, quando ideologias totalitárias e o laicismo militante tentavam banir Deus da esfera pública, absolutizando o Estado e a política. Hoje, enfrentamos guerras, fragmentação social, polarizações destrutivas e um secularismo indiferente ao sagrado. A mensagem de Cristo Rei permanece extremamente atual: ela nos recorda que nenhum governante, estado, mercado ou ideologia tem o direito de se colocar no lugar de Deus. A dignidade inviolável da pessoa humana só está plenamente resguardada quando reconhecemos a autoridade amorosa do Criador. A verdadeira paz (Pax Christi) não nasce da força das armas, mas do acolhimento da verdade de Deus no coração do homem.


11. Por que a Igreja no Brasil estabeleceu o Dia dos Leigos e Leigas para essa mesma data e o que ele representa?

Pe. Edvanderson: A decisão da CNBB e do CNLB (em 1991) de celebrar o Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas na Solenidade de Cristo Rei possui fundamentação teológica profunda. Pelo Batismo, todo fiel participa do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo (Lumen Gentium, 31; Christifideles Laici, 14). A realeza do leigo se exerce na sua missão própria: estar no "coração do mundo" e na "linha de frente" da Igreja. Enquanto a hierarquia cuida da pastoreação e dos sacramentos, cabe ao leigo a missão de santificar as realidades temporais — a política, a economia, a universidade, o meio ambiente, a comunicação e a família. Celebrar os leigos neste dia recorda que o Reino de Cristo se expande através da presença viva e atuante dos batizados na sociedade.

Informações da Notícia

Data de Publicação

Quinta-feira, 5 de novembro de 2026

11:05

Autor

Alice Zanini

Tempo de Leitura

5 minutos

Categoria

Arquidiocese Cascavel

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