
Padre Valdecir Camilo de Freitas celebra 30 anos de sacerdócio
05/02/2026 • 5 min


A missa dominical é o centro, mas a Leitura Orante nos mantém na presença de Deus ao longo de toda a semana.
Neste mês de setembro vivenciamos o mês da Bíblia, que em 2026 busca refletir sobre o Livro de Daniel, com o lema "Seu reino jamais será destruído" (inspirado em Daniel 7:14). A proposta central é fortalecer a fé e a esperança dos cristãos, mostrando que a soberania de Deus permanece sempre, acima de tudo e de todos.
Papa Leão XIV disse: “Deus nos ama, Deus ama a todos vocês, e o mal não prevalecerá”. Assim, desde o início chamou nossa atenção no sentido de que as pessoas precisam realmente ter uma vivência diária da palavra de Deus.
O significado do Mês da Bíblia, o contexto histórico das escrituras e a aplicação prática dos textos sagrados, são assuntos abordados na entrevista a seguir, pelo pe. Adriano Lazarini dos Santos - Doutor em Teologia Bíblica e Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Ele nos apresenta um panorama da formação histórica e teológica da Bíblia, desde a experiência de fé até a fixação do cânon de 73 livros. Discute a importância do estudo histórico-crítico, a inspiração divina, e como a Bíblia dialoga com angústias e esperanças contemporâneas, além de abordar desafios práticos de leitura e recomendar um caminho pedagógico para o estudo.

Qual é a origem e o propósito do Mês da Bíblia e por que o mês de setembro foi escolhido no Brasil?
Pe. Adriano – Surgiu por uma iniciativa da Arquidiocese de Belo Horizonte em 1971. Foi impulsionado pelas Irmãs Paulinas, por meio do Serviço de Animação Bíblica. Expandiu-se gradualmente até ser proposta para todas as dioceses do Brasil, mas é uma ação caracterizada como iniciativa genuinamente brasileira. Ocorre em setembro, alinhado à celebração litúrgica de São Jerônimo em 30 de setembro. Este santo é referência por sua tradução da Bíblia para o latim (Vulgata) e por seu profundo conhecimento das Escrituras. O mês propõe sempre um tema para refletir a Palavra de Deus, valorizando sua importância na vida dos católicos.
Falando do histórico desse livro Sagrado, como era a Bíblia na sua origem?
Pe. Adriano – É um processo longo de experiência, memória e escrita. A Bíblia não nasceu como “livro” pronto; começou como experiência de Deus, inspirada e guiada pelo Espírito, depois memorizada e só então registrada por escrito. Na cultura hebraica antiga, a memória era central devido ao limitado acesso à escrita e ao letramento; a oralidade precedeu a redação. No mundo antigo e na Idade Média, escrever/copiar era caro e raro; há relatos verossímeis de senhores feudais venderem propriedades para custear uma cópia manuscrita da Bíblia. O acesso popular só veio com a invenção do papel, da imprensa e a Revolução Industrial. Importante destacar que houve reconhecimento progressivo da identidade religiosa dos textos e uma “purificação” para discernir quais expressavam a fé de modo condizente. Ao final veio a consolidação com o conjunto de 73 livros da Bíblia católica, a qual é compreendida como narrativa catequética: comunica a experiência do encontro com Deus, tanto no Antigo (experiência hebraica e formação de Israel) quanto no Novo Testamento (plenitude da revelação em Jesus Cristo).
Como as Sagradas Escrituras foram traduzidas e popularizadas?
Pe. Adriano – Este foi o importante papel de São Jerônimo. Ele recebeu do Papa Dâmaso a missão de traduzir a Bíblia para o latim, então foi a Jerusalém, estudou hebraico e buscou entrar na mentalidade hebraica para traduzir fielmente o seu conteúdo. Dedicou a vida à tradução da Vulgata. Foi um trabalho de décadas de outros tradutores e exegetas ao longo da história. Já a sua popularização começou a partir da impressão gráfica, e a primeira Bíblia impressa foi produzida entre 1450 e 1455 em Mogúncia (Mainz), Alemanha, por Johannes Gutenberg, como um dos primeiros livros impressos em prensa metálica no mundo.
Como a pesquisa histórica e o estudo da cultura dos povos antigos nos ajudam a interpretar corretamente os textos bíblicos?
Pe. Adriano – Em respeito ao contexto histórico, importante lembrar que Deus se revelou na história; interpretar corretamente exige considerar o período, a linguagem e a cultura do autor inspirado. Evitar impor categorias e linguagem de 2026 a textos de 2.000 a 4.000 anos atrás. A sugestão é que sejam seguidos os três passos fundamentais: Leitura - contato inicial com o texto; Exegese - “tirar do texto” suas informações não superficiais; Hermenêutica - interpretação e aplicação à própria realidade.
Essa interpretação nos exige uma maturidade?
Pe. Adriano – Sim. Maturidade intelectual e espiritual. Intelectual, para respeitar o sentido objetivo do texto e suas regras de leitura, antes de aplicá-lo. Espiritual, para reconhecer o mistério da Palavra, aprofundar-se sem a presunção de achar que já sabe. A tradição rabínica alude a “70 sentidos” como símbolo da inesgotabilidade interpretativa.
O que a teologia diz sobre o conceito de "inspiração divina" na formação da Bíblia?
Pe. Adriano – No entendimento teológico da inspiração, Deus preside o processo formativo por meio do Espírito Santo; há múltiplos autores, muitos anônimos, mas o escrito para a comunidade é prioritário na mentalidade bíblica. Deus e o autor humano atuam conjuntamente; a graça ilumina a linguagem e a cultura do autor para transmitir o que Deus quer revelar.
Como os ensinamentos e profecias presentes na Bíblia dialogam com os desafios, angústias e esperanças da sociedade atual?
Pe. Adriano – Desde o racionalismo e iluminismo (sécs. XV–XVIII), a Bíblia foi confrontada por critérios de ciência, literatura, astronomia e biologia. A Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, esclarece: a Bíblia não pretende ensinar ciências ou técnicas literárias; sua mensagem visa comunicar a salvação.
De acordo com a teologia, qual é a diferença prática entre ler a Bíblia como um livro de história e lê-la como Palavra de Deus viva?
Pe. Adriano – Ler como um livro qualquer limita a abordagem aos critérios de cada ciência. Ler como convite de Deus nos introduz na dinâmica da fé e da salvação; a Bíblia é o maior best-seller da história e sintetiza a experiência de fé do judaísmo e do cristianismo.
O que é e como podemos vivenciar a chamada "Leitura Orante" ou Lectio Divina. É uma prática nova?
Pe. Adriano – Essa é uma prática antiga, desde o início dos Padres na Igreja e a vida monástica; não é “nova”, mas foi redescoberta após períodos de distanciamento e preconceitos. A Lectio Divina nos orienta a seguir cinco passos, sendo: 1- Leitura: escolher um trecho, por exemplo, o evangelho do dia, ler pausadamente, reler, identificar termos difíceis, ‘mastigar’ o texto; 2 -Meditação: o que o texto diz a mim? Permanecer tempo adequado no recolhimento; 3 - Oração: resposta a Deus com base no que a Palavra suscitou; 4 - Contemplação: olhar a vida com as “lentes” de Deus a partir do que foi lido, meditado e rezado, e; 5 - Ação (passo decorrente): atitudes concretas para orientar vida e práticas segundo a Palavra. Recomenda-se 40–60 minutos para uma boa leitura orante; se não possível, começar com 10 minutos e aumentar gradualmente, como se faz com o exercício físico. A disciplina se desenvolve com treino e prioridade no cotidiano de cada um.
Por que as pessoas sentem dificuldade em inserir a Palavra de Deus no cotidiano?
Pe. Adriano – Os obstáculos mais comuns são o baixo hábito de leitura e questões educacionais no país. Ainda temos uma grande necessidade de disciplina espiritual semelhante a hábitos de saúde, bem como a suposição equivocada de que tudo é autoexplicativo; falta de estudo e de materiais de apoio dificultam a compreensão de textos, nomes e contextos.
Existe alguma técnica que facilite o acesso à leitura e a sua compreensão?
Pe. Adriano – Recomendo que se busque boas leituras, livros de apoio, conversas e fontes confiáveis, inclusive internet, para aprofundar. Um bom caminho é começar pelos Evangelhos, o núcleo da fé cristã e mais próximos da experiência do fiel. Depois seguir com Atos dos Apóstolos e cartas de São Paulo; ampliando a todo o Novo Testamento. Em seguida pode introduzir os Salmos para alimentar a oração pessoal com linguagem bíblica. Por fim vai para a leitura do Antigo Testamento, à luz de Cristo, pois assim estará mais preparado para evitar leituras fundamentalistas, como, adotar práticas rituais judaicas sem o crivo da interpretação de Jesus. Por exemplo, as proibições alimentares do Levítico não se aplicam ao católico do Novo Testamento, pois Jesus oferece a chave interpretativa definitiva das Escrituras e relativiza certas práticas.
Qual o contexto do livro de Daniel, tema do mês da Bíblia deste ano?
Pe. Adriano – Este livro traz um contexto histórico e literário. Em (Dn 7,14) lemos: “Seu reino jamais será destruído”, situado no gênero apocalíptico do período pós-exílico (após Babilônia) estendendo-se até a época próxima da encarnação de Cristo. Tempo em que Israel vivia sob domínios sucessivos - assírios, babilônios, persas, gregos e romanos, alimentando expectativa de intervenção divina: restauração do reino e vinda do Messias. Aí temos a finalidade teológica, que, ao contrário da leitura sensacionalista de “fim do mundo”, o apocalíptico visa suscitar esperança e confiança na fidelidade de Deus, afirmando que, apesar dos impérios e do pecado humano, Deus é fiel, revelou-se e salva; seu reino é fundamento da esperança do povo.
Revista Arquidiocesana Nossa Senhora Aparecida
Data de Publicação
Terça-feira, 1 de setembro de 2026
10:44
Autor
Alice Zanini
Tempo de Leitura
5 minutos

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